sábado, 10 de agosto de 2013

Paranoia




PARANOIA


O significado literal da palavra paranoia vem do grego para = ao lado de, fora; e noia = de si, ou seja "fora de si".
Paranoia é um termo utilizado por especialistas em saúde mental para descrever desconfiança ou suspeita altamente exagerada ou injustificada. A palavra é frequentemente utilizada na conversação cotidiana, em geral em momentos de rancor e de forma incorreta. Simples desconfiança não é paranoia - especialmente se fundamentada em experiência passada ou em
expectativas baseadas na experiência alheia.
A paranoia pode ser discreta e a pessoa afetada ser razoavelmente bem ajustada socialmente ou pode ser tão grave que o indivíduo se torna incapacitado. Às vezes o diagnóstico é difícil, já que muitos distúrbios psiquiátricos são acompanhados de alguma característica paranoide. As paranoias podem ser classificadas em três categorias principais: distúrbio paranoide de personalidade, distúrbio delirante paranoide e esquizofrenia paranoide.


DISTÚRBIO PARANOIDE DE PERSONALIDADE

Algumas pessoas tornam-se desconfiadas sem motivo, em tal grau que seus pensamentos paranoides destroem sua vida profissional e familiar. Diz-se que tais pessoas têm distúrbio paranoide de personalidade. Elas geralmente são:

DESCONFIADAS - A desconfiança permanente é um sinal inconfundível de paranoia. Pessoas com distúrbio paranoide de personalidade estão constantemente em guarda, por enxergarem o mundo como um lugar ameaçador. Tendem a confirmar suas expectativas, agarrando-se a mínimas evidências que confirmem suas suspeitas, e ignoram ou distorcem qualquer prova em contrário. Estão sempre alertas, procurando sinal de alguma ameaça.
Qualquer pessoa em uma situação nova - nos primeiros dias em um emprego ou iniciando um relacionamento, por exemplo - é cautelosa e de certa forma reservada, até sentir que seus temores são infundados. Pessoas com paranoia não conseguem abandonar seus temores. Continuam a esperar por armadilhas e duvidam da lealdade dos outros. No relacionamento pessoal ou no casamento, essa desconfiança pode apresentar-se sob a forma de ciúme patológico e infundado.

HIPERSENSÍVEIS - Por estarem excessivamente alertas, as pessoas com distúrbios paranoide de personalidade percebem qualquer minúcia e podem ofender-se sem motivo. Em consequência, tendem a ser excessivamente defensivas e hostis. Quando cometem algum erro, não reconhecem a culpa, nem aceitam a mais leve critica. Entretanto, são extremamente criticas em relação aos outros. Pode-se dizer que tais pessoas fazem "tempestade em copo d'água".

FRIAS E DISTANTES - Além de serem polemistas e irredutíveis, as pessoas com distúrbio paranoide de personalidade têm dificuldade de manter vínculos afetivos. Parecem frias e evitam relacionamentos interpessoais. Orgulham-se em serem racionais e objetivas. Pessoas com uma perspectiva paranoide em relação à vida raramente procuram auxílio médico/terapêutico - não faz parte de sua natureza pedir ajuda. Profissionalmente podem atuar com competência. Podem procurar redutos sociais onde o estilo moralista e punitivo seja aceitável ou, até certo ponto, tolerável.


DISTÚRBIO DELIRANTE PARANOIDE

Os psiquiatras fazem distinção entre o discreto distúrbio paranoide de personalidade descrito acima, e o distúrbio delirante paranoide, mais incapacitante. A característica mais marcante deste último é a presença de um tipo de delírio persistente e não bizarro, sem sintomas de qualquer outro distúrbio mental.
Delírios são crenças fortes, não verdadeiras, não compartilhadas por outras pessoas da mesma cultura e não facilmente modificáveis. Cinco tipos de delírios são observados. Em alguns indivíduos, mais de um pode ocorrer.
O delírio mais comum nos distúrbios delirantes é persecutório. Enquanto que quem tem personalidade paranoide podem suspeitar de que seus colegas estão rindo à suas custas, pessoas com delírio de perseguição desconfiam que os outros estejam elaborando grandes tramas para perseguí-las. Acreditam que estão sendo envenenadas, drogadas, espanadas, ou que são alvos de conspirações com o intuito de arruinar sua reputação ou até lhes causar a morte. Ás vezes, movem ações judiciais com a intenção de serem ressarcidas por injustiças imaginárias.
Outro tipo frequentemente observado é o delírio de ciúme. Qualquer indício - até uma mancha insignificante na roupa ou um pequeno atraso para chegar em casa - é interpretado como evidência de que o cônjuge está sendo infiel.
Delírios eróticos envolvem uma fixação romântica por uma pessoa, geralmente alguém de nível social mais elevado ou alguma celebridade. Indivíduos com delírios eróticos muitas vezes assediam pessoas através de inúmeras cartas telefonemas, visitas e vigilância furtiva.
Pessoas com delírios de grandeza geralmente acham que são dotadas de poderes especiais e que, se autorizadas a praticar esses poderes, poderiam curar doenças, erradicar a pobreza, assegurar a paz mundial ou executar feitos extraordinários.
Indivíduos com delírios hipocondríacos estão convencidos de que há algo errado com seu corpo - acham que exalam mau cheiro, sentem-se infestados por insetos ou se julgam deformados e feios. Devido a esse tipo de delírio, tendem a evitar o convívio social e passam muito tempo consultando médicos sobre suas doenças imaginárias.
Ainda não foi avaliada de forma sistemática a hipótese de que pessoas com distúrbio delirante possam constituir perigo para outras, mas a experiência clínica sugere que tais pessoas raramente são homicidas. Os indivíduos delirantes geralmente são irritáveis e, por isso, são tidos como ameaçadores. Nos raros casos em que indivíduos com distúrbio delirante tornam-se violentos, suas vítimas geralmente são pessoas que inadvertidamente se encaixam em seu esquema delirante. A pessoa em maior perigo no relacionamento com um indivíduo com distúrbio delirante é o cônjuge ou amante.


ESQUIZOFRENIA PARANOIDE

Ideias e comportamentos paranoides são características de uma forma de esquizofrenia, chamada esquizofrenia paranoide. Indivíduos que sofrem de esquizofrenia paranoide normalmente são acometidos de delírios extremamente bizarros ou alucinações, quase sempre sobre um tema específico. Frequentemente ouve vozes que outros não podem ouvir ou acreditam que seus pensamentos estão sendo controlados ou divulgados em voz alta. Além disso, seu desempenho em casa e no emprego se deteriora, muitas vezes com um grau menor de expressividade emocional. 
Por outro lado, as pessoas com distúrbio delirante paranoide relativamente mais discreto podem ter sintomas como delírios persecutório ou de ciúmes, mas não as alucinações acentuadas ou impossíveis e os delírios bizarros da esquizofrenia paranoide. Tais pessoas geralmente podem trabalhar e seu comportamento e expressão emocional são coerentes com os temas de seus delírios. Excetuando os delírios, seu pensamento permanece sistematizado e lógico, ao contrário das pessoas com esquizofrenia paranoide, que com frequência, tem o pensamento desorganizado e confuso.

CAUSAS DA PARANOIA

FATORES GENÉTICOS - Pouco se tem estudado sobre o papel da hereditariedade na paranoia. Pesquisadores observaram que famílias de pacientes paranoides não apresentam incidência de esquizofrenia ou depessão acima do normal. Entretanto, há evidências de que sintomas paranoides na esquizofrenia pode ter influência genética. Alguns estudos em gêmeos idênticos com esquizofrenia mostraram que, quando um dos gêmeos apresenta sintomas paranoides, geralmente o outro também os manifesta. Além disso, pesquisas recentes tem indicado que distúrbios paranoides são significativamente mais comuns em parentes de pessoas com esquizofrenia do que na população em geral. Ainda não se sabe se os distúrbios paranoides - ou a predisposição para apresentá-los - são hereditários ou não.

FATORES BIOQUÍMICOS - A descoberta de que a psicose ( estado no qual o indivíduo perde o contato com a realidade ) é tratado com drogas antipsicóticas tem levado os pesquisadores a procurar as origens de distúrbios mentais graves em anomalias químicas no cérebro. A pesquisa tem se tornado muito complexa à medida que se descobrem mais e mais substâncias químicas que transmitem mensagem de uma célula nervosa para a outra -  os neurotransmissores. Até agora não se encontraram respostas definidas. Como nos estudos genéticos, também não houve estudos bioquímicos específicos em paranoia, a não ser como um subtipo de esquizofrenia. Há, no entanto, algumas evidências de que a esquizofrenia paranoide é bioquimicamente distintas das formas não-paranoides deste distúrbio.
O abuso de drogas como anfetaminas, cocaína, maryuana, PCP ( pó de anjo ), LSD ou outros estimulantes ou compostos "psicodélicos" podem produzir pensamentos ou comportamento paranoides, ou agravar os sintomas já existentes em pacientes com doenças mental grave como esquizofrenia. Pesquisadores estão estudando  a ação bioquímica de tais drogas, a fim de compreender como elas produzem mudanças no comportamento. Isso poderá nos ajudar a aprender mais sobre a neuroquímica dos distúrbios paranoides.

STRESS - Alguns especialistas acreditam que a paranoia pode ser uma reação a altos níveis de "stress" . Reforçando essa opinião, há evidências de que a paranoia incide mais entre imigrantes, prisioneiros de guerra e outras pessoas submetidas a altos níveis de "stress". Há pessoas que apresentam uma forma aguda de paranoia, quando submetida a uma situação nova e altamente estressante com delírios que se desenvolvem em um curto espaço de tempo e duram apenas alguns meses.
Alguns estudos demonstram que a paranoia tem ocorrido com maior frequência no século XX. A relação entre o "stress" e a paranoia não exclui, é claro, outros fatores causais. Um efeito genético, uma anomalia cerebral, um distúrbio no processamento de informações - ou todos os três fatores - poderiam predispor uma pessoa à paranoia; o "stress" poderia simplesmente atuar como fator desencadeante.

TRATAMENTO DA PARANOIA

A desconfiança das pessoas paranoides torna difícil o tratamento da doença. Raramente falarão com espontaneidade e uma consulta. Desconfiam do tipo de sondagem abertas que muitos terapeutas utilizam para conhecer a história do paciente ( por exemplo: "fale-me de seu relacionamento com seus colegas de trabalho" ). Podem não aceitar medicamentos ou uma internação, temendo a perda de controle ou outros perigos, reais ou imaginários.

TRATAMENTO MEDICAMENTOSO - O tratamento com medicamentos antipsicóticos apropriados podem ajudar o paciente paranoide a superar alguns sintomas. Embora o comportamento do paciente possa ser melhorado, os sintomas paranoides frequentemente permanecem inalterados. Alguns estudos indicam uma melhora dos sintomas com o tratamento medicamentoso, porém resultados semelhantes ocorrem frequentemente, em pacientes que recebem placebos ( remédio sem ingrediente ativo ). Esta observação sugere que, em alguns casos, a paranoia diminui mais por razões psicológicas do que pela ação do medicamento. Pacientes paranoides em tratamento com medicamentos devem ser mantidos sob rigorosa observação. A desconfiança e o delírio de perseguição os levam, muitas vezes, a recusar ou sabotar o tratamento - por exemplo, conservar o comprimido dentro da boca, sem engolir, até ficarem sozinhos e então cuspi-lo.

PSICOTERAPIA - Relatos de casos individuais sugerem que a oportunidade de expressar seus temores e desconfianças de forma regular, como é propiciada pela psicoterapia, pode ajudar o paciente paranoide a se ajustar à vida social. Embora as ideias paranoides pareçam persistir, elas podem tornar-se menos prejudiciais. Outros tipos de psicoterapia, com os quais se observa uma melhora do comportamento social, sem redução apreciável dos delírios paranoides, são a terapia familiar, a terapia de grupo e a arteterapia.

PERSPECTIVAS PARA OS PACIENTES PARANOIDES

Apesar das dificuldades de tratamento, pacientes com um distúrbio paranoide podem ajustar-se razoavelmente bem. Mesmo que suas ideias paranoides sejam aparentemente inabaláveis, vários tratamentos parecem eficazes, melhorando o ajustamento social, e evitando hospitalizações prolongadas. Os sintomas são menos bizarros do que os associados à esquizofrenia paranoide. Os distúrbios paranoides  parecem, também, causar menos desorganização da personalidade e ruptura na vida social e familiar. Ao contrário da esquizofrenia, que pode se tornar progressivamente pior, o distúrbio paranoide parece atingir um certo grau de gravidade e se estabilizar.



  • Créditos a National Institute of Mental Health EUA, Sociedade Brasileira de Psiquiatria Clínica e Psiquiatria Geral.